A gente nunca sabe com quem se relaciona, de verdade, como a pessoa realmente é.
Um tempo atrás, há muitos anos, fui fazer uma entrevista em uma casa noturna “gospel”. Lembro que a pessoa que abriu a porta e nos recebeu (havia outra candidata) ficou um tempo conosco até o dono do lugar chegar. Estava com uma cara de acabado, mas foi simpático - contou até um pouco da sua vida, dizendo que era de outro país, e falava um português um pouco carregado.
Fiz a entrevista, conheci o lugar, o trabalho não era difícil. A casa não vendia bebidas alcoólicas, e era um lugar bem legal para a galera crente que não tem muitas opções na madrugada pra curtir.
Passei na entrevista e comecei a trabalhar meio período.
Chegava, o dono me passava um serviço inútil e ia embora.
Bom, esse cara que me recebeu no dia da entrevista morava no lugar. Era um quarto dividido com outro menino que trabalhava fora.
Dormia o dia inteiro praticamente, tinha o horário invertido, e aparecia no meio da tarde. Conversávamos rapidamente e eu continuava no trabalho.
As conversas foram sendo prolongadas, afinal de contas só estávamos os dois no lugar e eu não tinha muita coisa pra fazer.
(Incrível, eu não lembro como foi que tudo começou. Estou tentando me esforçar pra lembrar, mas é só um buraco negro.)
Enfim, começamos a nos relacionar. No final do meu dia de trabalho eu ficava mais tempo com ele, saíamos pra comer, conversávamos, eu praticava meu inglês.
Lembro que o celular dele tocava um bipe de hora em hora. Era irritante.
Tudo isso - que parece ter durado meses - foram apenas uns 20 dias.
Um dia ele me ligou num sábado de manhã, com uma conversa super estranha. Falando que iriam pegá-lo, que tinha gente atrás dele, um monte de coisas sem sentido. Falei que iria me encontrar com ele, e depois precisava passar em um lugar e pedi que fosse comigo.
Lembro nesse dia que a atitude dele era de desconfiança, super sério, olhando para todos os lados....esquisito.
Nunca vi, nunca percebi, nunca notei nada que indicasse uso de drogas.
A vida continuou.
Um dia, trabalhando no escritório, ele subiu para falar comigo, como sempre fazia.
Cumprimentos secos.
De repente ele começou com uma conversa sem sentido novamente. Questionando coisas que eu estava fazendo que pra mim não fazia sentido nenhum. Eu tentava me justificar em pé, na frente dele.
Então ele começou a ficar um pouco mais agressivo e irritado.
Me segurava forte pelo braço, me encostava na mesa e falava coisas sem sentido.
Comecei a ficar com medo.
Num certo momento ele saiu.
Voltou nervoso, fechou a porta do escritório, e até ia trancar. Eu pedi que não fizesse isso.
Me sentou no sofá à força, e ficava do meu lado me encarando.
Tentava me levantar, ele empurrava.
Quando fiquei em pé, desejando sair daquele lugar sem janela, sem saída (só uma porta fechada, e um lunático falando coisas sem sentido), encostei na mesa e comecei a sentir que ele não conseguiria quebrar a minha cara como desejava.
Ele no máximo conseguiria me empurrar. Ficava muito perto de mim, mas sentia que ele não podia invadir uma limitação invisível.
Sentia que ia morrer, que ele queria me quebrar inteira tamanha era a raiva que saía dele. Sentia medo, muito medo, vontade de chorar, tentava ficar calma. Olhava pra ele sem entender nada, e sentia que ele não podia me alcançar, e ele ficava transtornado com isso, tentando me agredir, me matar com o olhar.
Então ele falou que eu podia ir embora.
Desliguei as coisas muito rápido. E fui em direção à porta.
Fiquei com medo porque tinha que descer uma escada, e temi que ele me jogasse dela. Mas ele não fez nada.
Desci as escadas tremendo, chorando, com medo. Nunca me senti tão apavorada na vida.
Fui embora e liguei para uma amiga, aos prantos.
O medo permaneceu.
Ficava assustada o tempo todo. Saía na rua me sentindo perseguida.
Acordava toda madrugada com o som do despertador do celular dele. Aquele bipe irritante tocava no meio da madrugada, no meu quarto, dentro da minha cabeça.
Engordei muito. Ficava deitada no sofá sem motivação nenhuma.
Tenho só alguns flashes dessa parte. Não me lembro como contei pra minha família - se é que contei...
Hoje eu entendo que a limitação que impediu que ele me matasse (eu sabia que isso ia acontecer, essa certeza de que ele queria me matar ninguém tira da minha cabeça) foi divina. Não pude ver, mas sabia que algo muito maior estava ali, entre ele e eu.
Eu choro só de lembrar desse momento, e de saber que Deus se importou e cuidou de mim naquele momento.
Deus me livrou da morte.
Quantas pessoas se arriscam todos os dias, saindo com desconhecidos, dormindo com estranhos, colocando essas pessoas dentro das suas casas, fazendo parte de suas vidas.
Quantas não são as vezes que Deus manda seus anjos para nos guardar? Para te guardar?
Daí a importância de você se guardar, esperar em Deus, poder conhecer a pessoa, serem amigos ... e assim ser livrada do engano.
Eu sou a preciosa Dele, você é a preciosidade de Deus. E mesmo no meio da sua loucura, dos seus erros, Ele estende a mão pra te salvar, porque Ele te ama.
Ele me ama.
Obrigada por esse amor Jesus, que é tão imerecido.
Obrigada pelo Teu cuidado.

Parabéns...pela força em expor este tipo de situação...!
ResponderExcluirPelo que conheço da "Glaucia", não faria isso por fazer...mas porque o Senhor realmente tenha falado com ela.
Que desta forma pessoas possam se identificar com situações como essas, que acontecem o tempo todo, e através do seu blog, terem espaço de viver tbm uma libertação. Afinal é horrível quando acontece algo conosco das quais não temos nem coragem de contar!
Deus te abençoe Glau!
Te amo.
Eu lembro dessa história, apesar de na época não te-la como amiga, fiquei chocada com o acontecido.....mas Deus é bom! E ELE te ama a ponto de nunca deixar com que algo te aconteça, graças as orações de pessoas que com certeza já estavam vendo coisas que vc, na época, não via.
ResponderExcluirDeus te abençoe!